Em 72 horas, o senador passou da derrota declarada pelo TSE ao desembarque em Miami, com decisão do STF no meio
A saída de Flávio Bolsonaro do Brasil levou menos de 72 horas. No domingo, 25 de outubro, o Tribunal Superior Eleitoral declarou o senador do PL derrotado no segundo turno da eleição presidencial. Na quarta-feira, 28, ele desembarcou em Miami. Entre um ponto e outro houve decisão do Supremo Tribunal Federal, passaporte cancelado e travessia de fronteira.
Esta reportagem reúne a cronologia do episódio. Os fatos vêm de decisões judiciais, de comunicados oficiais e de reportagens publicadas no Brasil e na Argentina. Além disso, parte do roteiro operacional ainda depende de confirmação. Por isso, cada informação aparece com a fonte que a sustenta.
Domingo, 25: a prorrogação e o resultado do TSE
A votação do segundo turno deveria encerrar às 17h. Contudo, as duas campanhas pediram mais tempo. O argumento foi o mesmo nos dois lados: chuva, alagamento e falha no transporte. O ministro Cristiano Zanin estendeu o prazo até as 19h, apenas para as urnas que ainda estavam abertas.
Um levantamento da BBC mediu depois o efeito dessa extensão. Cerca de 33,8 mil votos entraram após as 17h, ou 0,026% do total. A diferença entre os dois candidatos foi de 4,4 milhões de votos. Ou seja, o volume tardio ficou 130 vezes menor que a margem.
Às 21h09, o TSE proclamou a vitória de Lula, com 51,79% contra 48,21%. A proclamação é um ato do tribunal eleitoral, não uma consulta à população. Ela encerra a totalização dos votos, mas não encerra as contestações apresentadas depois dela. Sete minutos depois, a Polícia Federal protocolou uma representação de 16 páginas. No documento, a corporação apontou risco de fuga e pediu a apreensão dos passaportes do senador.
Ainda naquela noite, Alexandre de Moraes atendeu ao pedido. Dessa forma, cancelou os passaportes comum e diplomático, proibiu a saída do país e deu 24 horas para a entrega de qualquer passaporte estrangeiro.
Segunda, 26: a promessa de ficar
Pela manhã, Flávio visitou o pai, Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar. Na saída, agentes da Polícia Federal o intimaram. Por volta das 16h50, ele publicou um vídeo nas redes sociais.
“Eu nunca pensei em sair do país. Eu vou entregar os meus passaportes e vou me defender dessa aberração”, afirmou. Em seguida, aliados pediram que ele permanecesse. O senador Rogério Marinho foi um deles.

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Terça, 27: o prazo vencido e a confusão
O prazo para a entrega dos documentos venceu por volta das 11h. Flávio não cumpriu. Portanto, a Polícia Federal cancelou os passaportes brasileiros e comunicou o relator.
Durante todo o dia, a imprensa brasileira e a estrangeira publicaram versões contraditórias. Fontes norte-americanas e argentinas diziam que ele já havia partido. Aliados negavam. No entanto, nenhum registro formal de saída apareceu nos controles brasileiros.
Às 10h43, Santiago Caputo publicou no X uma imagem do filme “O Grande Truque”, sem legenda. O assessor do presidente Javier Milei não ocupa cargo formal no governo argentino. Mais tarde, ele ironizou a cobertura jornalística.
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A travessia da fronteira
Segundo a Direção Nacional de Migrações da Argentina, a família cruzou a Ponte Internacional Tancredo Neves às 22h50. O senador usou passaporte italiano, obtido em 2023. Com ele estavam a esposa, Fernanda, e as duas filhas.
Reportagens dos jornais argentinos Clarín e Perfil apontam que Caputo esteve em Puerto Iguazú e acompanhou a operação. Essas reportagens citam fontes da Casa Rosada. Caputo, por sua vez, não confirmou participação. Veículos argentinos chamaram o episódio de “Operación Iguazú”.
Às 23h30, o grupo embarcou em um jato Gulfstream com destino a Guayaquil, no Equador. A aeronave decolou de Puerto Iguazú às 0h22. Assim, o trajeto evitou o espaço aéreo brasileiro.
Quarta, 28: a chegada a Miami
O avião pousou em Guayaquil por volta das 5h46, no horário de Brasília. Em seguida, decolou novamente às 6h22. O desembarque no Aeroporto Executivo de Miami Opa Locka aconteceu perto das 10h23. Imagens de agências internacionais registraram a família descendo da aeronave.
O Departamento de Estado dos Estados Unidos confirmou a emissão de vistos e a autorização de entrada. Donald Trump declarou que aprovaria a chegada. O presidente norte-americano também classificou a eleição brasileira como estranha, sem apresentar provas. O PL, por outro lado, já havia reconhecido o resultado proclamado pelo TSE.
O que dizem os órgãos brasileiros
Horas depois, Flávio divulgou uma carta em que se declara líder legítimo e alega perseguição política. O texto cita fraude eleitoral e não veio acompanhado de documento. O portal apura as contestações levantadas desde então e publicará o que for verificado. Parlamentares do PT pediram prisão preventiva e cassação.
A Polícia Federal informou que o descumprimento das medidas não transforma o senador em foragido de forma automática. Não havia mandado de prisão aberto no momento da saída. Atualmente, a corporação apura as circunstâncias do episódio.
Flávio é investigado em dois inquéritos no Supremo. Um deles trata de suspeita de lavagem de dinheiro e envolve o advogado Willer Tomaz. O outro apura o financiamento de uma cinebiografia do pai. Em nenhum dos casos há denúncia aceita até agora. A defesa nega irregularidades.
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