Eles riem de mim, riem de você, riem de quem paga o imposto que sustenta aquele prédio em Brasília
Olhe a foto. Quatro ministros do Supremo Tribunal Federal, em pé no saguão da Corte, rindo. Rindo alto. O registro é desta quarta-feira (2), depois da sessão, no mesmo dia em que o nome de Alexandre de Moraes voltou a aparecer em reportagem sobre um contrato de R$ 130 milhões.
Eles riem de mim. Riem de você. Riem de quem levantou às cinco da manhã em Parauapebas, pegou ônibus lotado e pagou, no preço do arroz, o imposto que sustenta aquele prédio.
Não é implicância com o riso. Rir é humano, e ninguém aqui quer juiz de cara fechada. A foto mostra outra coisa. Mostra gente que não sente o peso deste país nas costas. O Brasil passou o dia falando do que foi publicado sobre eles, e eles conversavam à vontade, como quem sai de uma festa.
Esse riso não é riso. É deboche.
Deboche tem endereço certo. Ele chega em quem passa o mês decidindo entre o gás e o remédio, e vê no celular que a autoridade máxima da Justiça brasileira estava se divertindo justamente no dia em que o nome dela apareceu na denúncia.
O que aconteceu no dia dessa foto
Reportagens da imprensa nacional colocaram o ministro Alexandre de Moraes no meio de novas revelações. Falam em participação dele na edição de um contrato de R$ 130 milhões. Falam em cortesias oferecidas pelo banqueiro Vorcaro, hoje preso.
Nada disso saiu com desmentido. Nenhuma nota. Nenhuma explicação. Só a foto, com o riso.
A Corte que deveria guardar a Constituição respondeu ao país com silêncio e boa disposição no saguão. Quem trabalha e paga imposto merecia pelo menos uma frase.
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Brasília fica a 2 mil quilômetros, mas a caneta chega aqui
Não pense que isso é briga de gente grande, longe de nós. Foi a caneta do próprio Alexandre de Moraes que suspendeu a CPI da Mineração na Câmara de Parauapebas, a pedido da Vale. A comissão investigava a CFEM, o dinheiro que sustenta esta cidade.
Vereador eleito por parauapebense parou de investigar por decisão de um homem que nunca pisou aqui. E Parauapebas segue com fila em posto de saúde e transporte escolar que não chega na porta do aluno.
Essa foto não é assunto de Brasília. É assunto nosso.
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Tem um ministro que ri tanto que se curva para trás. Fiquei olhando essa parte da imagem. Eles se curvam mesmo, todo dia. Só que não é diante da lei.
Curvam-se diante do poder de julgar e nunca ser julgado. Diante do poder de decidir a vida de mais de 200 milhões de pessoas sem prestar conta a ninguém. Diante do poder de errar e continuar sentado na mesma cadeira.
O que eles tiram do brasileiro não é dinheiro. Dinheiro a gente refaz, na raça. Eles tiram a fé. Tiram a esperança de que um dia este país vai valer igual para quem tem sobrenome e para quem não tem.
O que este portal cobra
O Supremo precisa falar, e não com nota protocolar. O ministro citado nas reportagens precisa explicar, ponto por ponto, o que foi publicado sobre ele. A Procuradoria-Geral da República precisa dizer se vai apurar ou se vai fingir que não viu. O Senado, que tem na Constituição a competência de julgar ministro do Supremo, precisa dizer se o assunto existe.
E o leitor tem a parte dele. Guarde essa foto. Ela diz mais sobre o Brasil de hoje que qualquer discurso de campanha do ano que vem.
O Brasil é o melhor país do mundo. Tem o melhor povo, a melhor terra e o melhor jeito de levantar depois de cada tombo. Só que ele está preso na mão de gente que se acha intocável. E gente intocável só se solta de um jeito: com cobrança, todo dia, sem cansar.
Eles riem hoje. A gente registra. E registro não some.
Felipe Tommy é jornalista e diretor de redação do Portal Felipe Tommy.
Nota da redação: as informações sobre o contrato de R$ 130 milhões e sobre as cortesias atribuídas ao banqueiro Vorcaro foram publicadas por veículos da imprensa nacional e não são apuração própria deste portal. O espaço está aberto ao ministro Alexandre de Moraes e ao Supremo Tribunal Federal, e qualquer manifestação será publicada na íntegra.
