Relatório da PF mostra contrato de R$ 3,4 milhões por mês e metadado com o nome do ministro como último editor
O relatório da Polícia Federal sobre o Banco Master e o escritório Moraes veio a público nesta semana. O documento tem 218 páginas e descreve um contrato de R$ 3.422.268,14 por mês. Além disso, ele reúne ordens de pagamento dadas pelo banqueiro Daniel Bueno Vorcaro a funcionários do próprio banco.
A perícia analisou o iPhone 17 Pro apreendido com Vorcaro em 18 de novembro de 2025. Naquele dia, a corporação deflagrou a Operação Compliance Zero. A investigação apura fraudes de cerca de R$ 12 bilhões na cessão de carteiras de crédito do Banco Master para o BRB. Por isso, a Justiça Federal decretou a prisão do banqueiro.
Um contrato de R$ 3,4 milhões por mês
A minuta chegou a Vorcaro em 11 de janeiro de 2024. Segundo o relatório, um número salvo no celular como “Vivi Moraes” enviou o arquivo com a frase “Conforme conversamos, estou enviando minuta de contrato de prestação de serviços para sua análise”. O escritório citado é o Barci de Moraes Sociedade de Advocacia, da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes.
Em seguida, o advogado de Vorcaro devolveu o documento com marcas de revisão. A versão final ficou pronta em 17 de janeiro. Dessa forma, o banqueiro assinou o instrumento em 23 de janeiro de 2024, às 15h15. Um diretor do banco assinou vinte minutos depois.
O primeiro pagamento saiu em 8 de fevereiro de 2024. A perícia localizou o comprovante da transferência do Banco Master para o escritório Barci de Moraes. O valor foi de R$ 3.422.268,14, depositado em conta no Itaú.
O metadado que aponta o ministro
O ponto mais delicado do documento está nos metadados do arquivo. A PF afirma que a minuta tem como autor um usuário chamado Guilherme Benazzi. No entanto, a última modificação aparece registrada em nome do usuário “Ministro Alexandre de Moraes”, às 16h30 do dia 11 de janeiro de 2024.
O mesmo registro se repete na versão final. Segundo o relatório, o arquivo teve nova alteração pelo mesmo usuário em 15 de janeiro de 2024, às 23h04. Ou seja, oito dias antes da assinatura.
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“Pode pagar sempre, sem nota”
A perícia mostra ainda como Vorcaro tratava esse pagamento dentro da instituição. Em 15 de março de 2024, o ex-ministro Fábio Faria cobrou o banqueiro por escrito: “O careca não pode atrasar”. Minutos depois, Vorcaro escreveu a um diretor que aquele era o “contrato mais importantw que temos” e mandou “pagar agora”.
Na sequência, ele orientou uma funcionária do setor financeiro. O pagamento não podia “atrasar um dia”, porque era o “op pgto mais importante que temos”. Logo depois, o banqueiro completou: “Pode pagar sempre, sem nota”. E encerrou com “Do jeito que for”.
Em 1º de abril de 2025, Vorcaro voltou ao tema. Ele perguntou onde estava o contrato e ordenou: “Ninguem ter acesso”. Inclusive, mandou o diretor recolher o documento. Já em 1º de outubro de 2025, o banqueiro reclamou de um pagamento do Banco Master ao escritório Moraes feito por PIX. “Nao e bom”, escreveu.
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Avião e helicóptero no segundo contrato
A PF localizou um segundo contrato, datado de 12 de maio de 2025. Dessa vez, o acordo uniu o escritório Barci de Moraes e a empresa Vikings Participações. O pagamento previa a entrega de cotas de dois ativos: um jato Legacy 650 e um helicóptero Airbus EC 155 B1.
Segundo a brochura anexada ao relatório, a cota do avião custava US$ 5.512.951,89. A do helicóptero, US$ 1.335.014,01. Além disso, o documento traz uma fatura de R$ 22.815.120,95 emitida em nome da Vikings.
Em julho de 2025, um sócio de Vorcaro encaminhou ao banqueiro o registro de uma conversa. Nela, ele pergunta se “estão gostando da utilização das cotas”. A resposta atribuída a Viviane foi direta: “Sim, estamos gostando muito”. O mesmo interlocutor afirmou que eles “já usaram aviões e helicópteros”.
O que a Polícia Federal diz que não fez
O relatório traz uma ressalva importante logo nas primeiras páginas. Por causa da Lei Orgânica da Magistratura e da Lei Orgânica do Ministério Público, a corporação afirma que não realizou “quaisquer atos de aprofundamento investigativo direcionados a magistrados”. Portanto, o trabalho se limitou a expor dados já apreendidos.
Vale registrar também que não existe, em nenhuma das 218 páginas, uma resposta atribuída ao ministro. Todas as frases citadas partem de Vorcaro, de Fábio Faria ou de funcionários do banco. Atualmente, o documento está sob análise do ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal.
O espaço permanece aberto para manifestação do ministro Alexandre de Moraes, do escritório Barci de Moraes e da defesa de Daniel Vorcaro.
