Rafael Barbosa não divulgou plano, nota ou reunião do GGIM enquanto agosto somava onze mortes
Parauapebas viveu em agosto o mês mais violento dos últimos anos. O município soma pelo menos onze mortes violentas no período. No entanto, o secretário de segurança de Parauapebas, Rafael Barbosa, não apareceu. A Semsi não divulgou nota oficial, plano emergencial nem reunião extraordinária do seu colegiado.
Quem respondeu foi o Estado. A Polícia Civil montou força-tarefa e o Governo do Pará incluiu a cidade na sétima fase da Operação Ponto Crítico. Portanto, a estrutura municipal ficou de fora da reação. E ela existe: a Semsi comanda a Guarda Municipal e o videomonitoramento da cidade.
O que o cargo obriga o secretário a fazer
Rafael Barbosa é o secretário de segurança de Parauapebas. Ele comanda a Secretaria Municipal de Segurança e Defesa do Cidadão. Portanto, a pasta responde pela Guarda Municipal, pela Defesa Civil, pelo Departamento Municipal de Trânsito e Transporte e pelo Centro de Controle e Operações. Ou seja, ela detém os instrumentos municipais de prevenção.
Além disso, o secretário preside o Gabinete de Gestão Integrada Municipal, o GGIM. Esse colegiado é justamente o espaço em que prefeitura, Polícia Civil, Polícia Militar e Guarda Municipal combinam ações conjuntas. É a ferramenta prevista para a atuação integrada que a cidade cobrou durante todo o mês.
Durante a crise, contudo, o município não divulgou nenhuma reunião extraordinária do GGIM. Também não anunciou reforço da Guarda Municipal nos bairros atingidos. Tampouco informou quantas câmeras do Centro de Controle e Operações estavam funcionando. Nenhuma das três informações apareceu em canal oficial.
Em 2026, a Semsi apareceu no trânsito
O noticiário oficial da Prefeitura mostra onde está a prioridade da pasta neste ano. As ações divulgadas pela Semsi concentram-se no trânsito. Entre elas estão a compra de etilômetros, o lançamento do Maio Amarelo e a operação contra linha de pipa.
Houve ainda reforço de videomonitoramento, mas no complexo turístico Bel Mesquita. Nenhuma dessas ações trata de prevenção social da violência. Além disso, nenhuma delas chegou aos bairros onde as mortes aconteceram. Por isso a distância entre a agenda da secretaria e a rotina da cidade ficou evidente em agosto.
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Onze mortes violentas em um único mês
A sequência começou na quinta-feira, 13 de agosto. Lúcio Felipe Amaral Barbosa, de 23 anos, morreu no bairro Jardim América. Na manhã seguinte, outro homem morreu em intervenção policial no Bairro da Paz. À noite, as equipes encontraram quatro corpos dentro de uma casa em Palmares 2, na zona rural.
Em seguida, na segunda-feira, 17, os corpos de Jhonata Pereira Gomes e Guilherme Rocha Oliveira apareceram no bairro União, perto do Rio Parauapebas. Na mesma noite, mais uma pessoa morreu em ação da Polícia Militar, no Nova Vida II. Assim, foram nove mortes em cinco dias.
A sequência não parou. Na terça-feira, 25, um homem morreu por disparo de arma de fogo na Avenida Havana, no bairro Vila Rica. No dia seguinte, Luís Felipe Ribeiro Veras, de 25 anos, morreu no Betânia. Um homem chegou de motocicleta, efetuou os disparos e fugiu. A motivação segue desconhecida.
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A resposta veio toda do Estado
A força-tarefa da Polícia Civil reúne quatro estruturas. Participam a 16ª Superintendência Regional de Carajás, as Delegacias de Homicídios de Parauapebas e de Marabá e a Coordenadoria de Recursos Especiais, a CORE. Ou seja, nenhuma dessas estruturas é municipal.
Os resultados apareceram rápido. No dia 21, a polícia prendeu uma mulher suspeita de atrair as vítimas do duplo homicídio. No sábado, 22, Aleff Sergio Sena Jorge, apontado como executor, morreu em confronto policial em Tucumã. Outras três pessoas acabaram presas em flagrante.
Além disso, em 20 de agosto o Estado deflagrou a sétima fase da Operação Ponto Crítico. A ação mobilizou mais de 400 agentes e cumpriu mais de 100 mandados em 74 municípios. Parauapebas ficou entre as cidades com mais prisões, com 15 registros. De novo, a operação é estadual.
Prevenção social é competência do município
Investigar homicídio é trabalho da Polícia Civil. Patrulhar rua é trabalho da Polícia Militar. Prevenção social da violência, no entanto, cabe ao município. Ela envolve programa para jovem, esporte, cultura, iluminação pública, ocupação de áreas degradadas e busca ativa nas escolas.
É exatamente essa a lacuna. Parauapebas aparece no Atlas da Violência de 2026 entre os municípios paraenses com maiores índices de homicídio. Ou seja, o alerta é anterior a agosto. A cidade já estava sinalizada como ponto crítico antes da sequência de mortes.
A promessa de campanha e o comando da pasta
Durante a campanha, Aurélio Goiano prometeu não entregar secretarias a vereadores. Ele chegou a afirmar que parlamentar interessado em cargo teria de abrir mão do mandato. Publicações da região registraram, no entanto, que o prefeito depois abriu espaço para indicações do Legislativo em postos estratégicos.
Nesse contexto, este portal questionou oficialmente a Prefeitura sobre o critério de nomeação do titular da Semsi. As perguntas incluem a formação do secretário na área e a eventual indicação de parlamentar para o cargo. Enquanto não houver resposta oficial, a reportagem não trata como fato nenhuma versão sobre apadrinhamento político.
Nove perguntas sem resposta
Este portal enviou pedido de contraditório à Prefeitura e ao secretário de segurança de Parauapebas. São nove perguntas objetivas. Elas tratam do plano municipal de prevenção, das reuniões do GGIM, do efetivo da Guarda Municipal, das câmeras em operação e do critério de nomeação do secretário.
Enquanto a apuração avança, quem convive com o medo é o morador. Jardim América, Bairro da Paz, União, Nova Vida II, Vila Rica, Palmares 2 e agora o Betânia entraram na lista em menos de duas semanas. Assim que houver retorno oficial, a reportagem atualizará esta matéria.
