Madson Camargos diz que ouviu o diagnóstico de gases em todos os atendimentos até o filho morrer em Marabá
O autônomo Madson Camargos procurou a redação do Portal Felipe Tommy para relatar a morte do filho, Antony Carneiro Camargos. Segundo ele, houve negligência médica em Parauapebas, no atendimento que começou na UPA do município. A criança morreu no sábado, 17 de outubro, no Hospital Regional Materno Infantil de Marabá.
O relato foi gravado em áudio e entregue ao portal pelo próprio pai. Nele, Madson descreve quatro dias de idas e vindas entre três unidades de saúde. De acordo com o pai, em todos os atendimentos a família ouviu a mesma explicação: que o quadro do menino era apenas acúmulo de gases.
Tudo começou com uma infecção de garganta
Conforme o relato, a família deu entrada com a criança na UPA de Parauapebas na manhã de quarta-feira, 14 de outubro. O diagnóstico registrado naquele atendimento foi infecção de garganta. Em seguida, a família voltou para casa com a prescrição.
Ainda segundo Madson, a mãe do menino, Ana Paula, pediu hemograma e ultrassonografia já nessa primeira consulta. O pedido, de acordo com ele, não foi atendido. “Só garganta”, teria respondido a equipe.
Na madrugada de quinta-feira, 15, o quadro mudou. O pai afirma que o abdômen da criança estava distendido e a respiração ficou mais curta. Por isso, a família voltou à unidade.
Foi então que apareceu a explicação que se repetiria em todos os atendimentos seguintes. “Está com gases, vai para casa”, diz o pai ter ouvido. A prescrição, conforme o relato, foi simeticona.
Em Eldorado dos Carajás, o mesmo diagnóstico
A família estava numa propriedade rural próxima de Eldorado dos Carajás quando o menino piorou de novo. Dessa forma, por volta de meia-noite de sexta-feira, 16, os pais levaram a criança ao hospital daquele município.
Madson conta que apresentou aos profissionais os sinais que o preocupavam. Segundo ele, listou a barriga inchada, a dificuldade para respirar, a falta de apetite e o fato de o filho não evacuar havia dias. A resposta, afirma, foi a mesma de Parauapebas.
“Eu disse: moço, isso aí é só gases, não é normal”, relata o pai. De acordo com ele, a equipe explicou que o intestino cheio comprimia os órgãos e por isso o menino respirava com esforço. A prescrição, conforme o relato, foi analgésico e medicação para gases.
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A transferência para Marabá e a hemorragia
Por volta das 5h30 de sexta-feira, segundo Madson, a criança piorou de forma visível. O pai afirma que pediu a liberação do filho para levá-lo a um serviço particular ou a um hospital de maior porte. Houve demora até sair o encaminhamento, diz ele.
Antony foi transferido de ambulância, com oxigênio, para o Hospital Regional Materno Infantil de Marabá. A unidade estadual foi inaugurada em março deste ano. Logo na chegada, conforme o relato, a equipe indicou a internação em unidade de terapia intensiva.
Pouco depois veio a intubação. Segundo o pai, foi nesse momento que a equipe de Marabá descreveu um quadro de hemorragia generalizada, com comprometimento pulmonar. “Eu lembro que me falaram que esse menino tinha gases. Só gases. Como é que agora esse menino está com hemorragia generalizada?”, questiona Madson no áudio.
A criança chegou a ser estabilizada e passou por drenagem. Entretanto, morreu no fim da tarde de sábado, 17 de outubro, em Marabá.
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Boletim de ocorrência para conseguir a necrópsia
O pai relata ainda uma dificuldade depois da morte. De acordo com ele, a família pediu a necrópsia do corpo e recebeu a informação de que o exame não seria autorizado, visto que não se tratava de morte violenta.
Diante disso, a família registrou boletim de ocorrência. Só então, conforme o relato, o corpo foi encaminhado para a necrópsia. O resultado do exame ainda não foi divulgado e é ele que vai apontar a causa da morte.
O desabafo do pai e o pedido de apuração
No fim do áudio, Madson cobra o poder público do município onde o atendimento começou. A denúncia de negligência médica em Parauapebas, no relato dele, não é sobre falta de leito, e sim sobre a recusa em investigar o quadro da criança.
“Essa cidade bilionária não me deu oportunidade de falar assim: leva teu filho quando tu quiser, para Belém, para Goiânia”, afirma. “Esses médicos não me deram a oportunidade de lutar pelo meu filho.”
A família informou que o velório ocorreu na chácara do Elizeu, na entrada do antigo Eskinão Bar. O sepultamento foi marcado para as 17 horas, no cemitério local.
O que o portal apurou até aqui
Até esta publicação, o portal tem como fonte o relato do pai, gravado em áudio e cedido por ele. Nenhuma das três unidades citadas se manifestou até o momento. Por isso, o caso de suspeita de negligência médica em Parauapebas segue em apuração.
A reportagem procurou a Prefeitura de Parauapebas, a Prefeitura de Eldorado dos Carajás e a Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará, responsável pelo hospital de Marabá. O espaço para manifestação permanece aberto, inclusive para publicação integral das respostas.
Nota da redação: as informações deste texto reproduzem o relato do pai da criança e não constituem conclusão sobre a conduta das equipes de saúde. A causa da morte depende do laudo da necrópsia, ainda não divulgado.
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