Publicado em 01/07/2026 às 05:49 | Atualizado 01/07/2026 às 05:49 por felipetommyreal
BPC e previdência pressionam despesas obrigatórias; governo amplia bloqueio para R$ 23,7 bi e especialistas alertam risco de recessão.
Os gastos da União atingiram R$ 2,633 trilhões no acumulado de 12 meses até maio de 2026, colocando o país em rota de colisão com o pico histórico das despesas registrado durante a pandemia. O ápice ocorreu em novembro de 2020, quando as despesas somaram R$ 2,822 trilhões com valores atualizados pela inflação. Portanto, a distância atual é de apenas R$ 189,5 bilhões para o recorde absoluto.
O principal motor dessa escalada são os gastos com previdência e com o Benefício de Prestação Continuada, o BPC. De acordo com o economista Alexandre Schwartsman, o ritmo de crescimento dessas despesas não é compatível com as regras do arcabouço fiscal. Por isso, o governo do presidente Lula precisou ampliar o bloqueio orçamentário para R$ 23,7 bilhões.

Previdência dobra o gasto com pessoal
Os números mostram a dimensão do desequilíbrio. Em maio, a previdência custou R$ 1,117 trilhão no acumulado de 12 meses. Para efeito de comparação, o governo gasta R$ 440,1 bilhões com pessoal. Ou seja, a previdência custa mais do que o dobro da folha de servidores federais.
Além disso, o mecanismo que pressiona essas despesas é estrutural. O governo garante o reajuste do salário mínimo com base na inflação medida pelo INPC. Consequentemente, os gastos obrigatórios como previdência e BPC crescem de forma automática todos os anos. Desse modo, o espaço no orçamento para investimentos fica cada vez mais reduzido.
O arcabouço fiscal sob pressão
A regra do arcabouço fiscal limita o crescimento das despesas a 2,5% ao ano acima da inflação. Contudo, Schwartsman aponta que as despesas obrigatórias já crescem acima desse teto. Sobretudo, o conjunto de regras que rege a evolução do gasto previdenciário, do funcionalismo, dos programas sociais e dos pisos de saúde e educação ultrapassa o limite permitido.
No segundo bimestre de 2026, as projeções de crescimento das despesas subiram R$ 14,1 bilhões no BPC e R$ 11,5 bilhões nos benefícios previdenciários. Por isso, o governo precisou ampliar o bloqueio orçamentário como instrumento para assegurar o cumprimento das regras fiscais. Além disso, o governo tem meta de superávit primário de 0,25% do PIB para este ano.

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O shutdown à brasileira
Para o especialista em contas públicas Murilo Viana, o orçamento federal vive uma espécie de shutdown à brasileira. Segundo ele, o crescimento das despesas obrigatórias tem estrangulado o espaço das despesas discricionárias. Igualmente, isso pressiona o funcionamento de toda a máquina pública.
Viana apontou exemplos concretos dessa restrição: agências reguladoras com limitações significativas, o Banco Central reclamando da falta de servidores e da impossibilidade de investir em tecnologia. Por conseguinte, essa percepção já se generalizou dentro do próprio governo. Para o especialista, sem uma correção imediata, a máquina pública corre risco real de parar já em 2027 ou 2028.
Reformas estruturais são inevitáveis
Os especialistas consultados pelo Portal Felipe Tommy são categóricos: mudanças pontuais não resolverão o problema. A solução exige reformas estruturais profundas, incluindo possivelmente uma nova reforma da previdência. Atualmente, sem mexer nas regras que determinam o crescimento das despesas obrigatórias, a tendência é de um orçamento cada vez mais engessado.
Schwartsman afirma que o controle de gastos no Brasil exige um conjunto ambicioso de reformas. Por fim, Viana avalia que o ajuste precisará ocorrer independentemente de qual candidato vencer as próximas eleições. Caso contrário, a máquina pública efetivamente para em 2027, mesmo que haja ganhos extraordinários de receita.
A dívida pública e o risco de recessão
O crescimento descontrolado das despesas também afeta diretamente a dívida pública. Quando a União gasta mais do que arrecada, ocorre um déficit primário. Para cobrir esse rombo, o Tesouro Nacional emite mais títulos públicos, o que engorda a dívida progressivamente.
Em abril, a dívida pública federal subiu 1,91%, alcançando R$ 8,798 trilhões. Esse valor equivale a quase 70% do PIB brasileiro de 2025. Para a diretora de macroeconomia do UBS GWM, Solange Srour, a trajetória atual é incompatível com a estabilização da dívida. Além disso, ela alerta que os gastos da União nesse ritmo elevam os juros, comprimem o crescimento econômico e geram expectativas de inflação mais alta. Entretanto, o maior alerta de Solange é sobre o risco de recessão: segundo ela, se o ajuste não for feito de forma imediata, o Brasil pode repetir o colapso de 2015 e 2016, com desemprego alto, inflação elevada e contração econômica profunda.
