A história de João expõe o alto custo de vida em Parauapebas mesmo com salário acima da média nacional. A trajetória de João até Parauapebas
Há quatro anos, João deixou Minas Gerais e veio para Parauapebas após aceitar uma proposta de emprego na área da mineração.
Na época, deixou para trás a esposa e os dois filhos, movido pela expectativa de construir uma vida mais estável. Como técnico de mineração, começou recebendo R$ 5 mil, valor que considerava promissor para o início da carreira.
Durante três anos, enfrentou longos e desgastantes turnos até ser promovido a supervisor de turma. Com o aumento, passou a receber R$ 7 mil por mês. A evolução profissional trouxe esperança, e João decidiu trazer a família para Parauapebas.
O peso das contas fixas
A tentativa de organizar a vida na cidade começou com a compra de um lote em conhecido loteamento da cidade, cuja parcela era de R$ 350 e hoje já chega a R$ 600. Em seguida, alugou uma casa pequena de dois quartos por R$ 1.800 mensais (valor barato para os padrões da cidade). Com o tempo, a possibilidade de sair do aluguel ficou cada vez mais distante. Diante do aumento das parcelas do terreno, João já pensou até em desistir de continuar pagando para tentar aliviar o orçamento.
Como pai de dois filhos, decidiu investir na educação das crianças. Segundo ele, as escolas públicas locais não atendem às expectativas da família, então matriculou os dois em uma escola particular próxima a sua casa, ao custo de R$ 1.300 por filho, totalizando R$ 2.600 por mês. A esposa também ingressou em uma faculdade particular, com mensalidade de R$ 1.500.
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Transporte, alimentação e saúde
Sem transporte público eficiente, João se viu obrigado a comprar um carro financiado para se locomover.
A parcela do veículo é de R$ 1.500 por mês. O carro, que deveria ser solução, virou mais uma despesa e fonte de preocupação: os buracos da cidade aceleram o desgaste do veículo e aumentam os custos de manutenção.
Pra sua sorte, João recebe vale-alimentação de R$ 1.200, mas o benefício não cobre todas as despesas com comida. Ele precisa complementar com cerca de R$ 500 extras por mês para comprar carne, verduras e itens básicos, o que faz nos bairros mais afastados, pois no centro ou nos atacadões são muito caros.
Mesmo tendo plano de saúde (atendimento que demora mais que no HGP), ainda gasta em média R$ 200 mensais com farmácia.
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Lazer escasso e o orçamento no vermelho
A rotina também deixou pouco espaço para lazer. A cervejinha gelada que costumava tomar com a esposa virou raridade, João considera absurdo pagar R$ 17 em uma cerveja de 600 ml em um ambiente que só entrega a mesa e uma música de qualidade duvidosa. Sem opções de lazer para sua família, duas vezes por mês leva os filhos ao shopping, uma das poucas opções de entretenimento da cidade, gastando em média R$ 200 por saída.
No dia a dia, despesas com vestuário, itens domésticos e outros gastos corriqueiros também pesam. João diz que já não sabe explicar como consegue fechar as contas e que sente uma dor grande no coração ao ter de dizer não a tudo o que a família pede.
Sua esposa quer fazer academia há 6 meses, mas não sobra dinheiro nem para comprar as roupas e o tênis para malhar, quem dirá pagar R$ 200 de mensalidade.
Em sua casa, a frase que mais se repete é sempre a mesma: “no 13º a gente compra”.
O aplicativo escondido e a pergunta que fica
Com salário de R$ 7 mil, João vê o dinheiro desaparecer antes do fim do mês. Somando as despesas, já chegam a cerca de R$ 9,1 mil mensais, sem contar vestuário e outros gastos do dia a dia. Ou seja, mesmo com uma renda considerada alta para muitos trabalhadores, o orçamento da família de João, morando em Parauapebas, fecha no vermelho.
Pra sua sorte, com a adoção da escala 3×3 na mineração na região de Carajás, em jornadas de 12 horas, João passou a ter três dias livres.
E foi justamente nesses dias que ele encontra um jeito de tentar fechar o mês: usa o próprio carro para fazer corridas por aplicativo. No entanto, faz isso em segredo.
João diz que torce para não ser reconhecido por alguém do trabalho, porque teme ser demitido caso a mineradora descubra a atividade extra. Segundo ele, há o entendimento de que esse esforço adicional pode ser visto como cansaço fora do padrão e até colocar em risco a segurança da operação.
É inegável que o suor de João contribui para o avanço da mineração e para o crescimento econômico de Parauapebas. Ainda assim, o sentimento dele é de que o esforço não se converte em qualidade de vida para a sua família. Gastos essenciais que poderiam ser absorvidos por serviços públicos mais eficientes acabam pesando no bolso da família, sem retribuição proporcional em infraestrutura, educação ou lazer. No fim das contas, a história de João levanta uma dúvida que ecoa entre muitos trabalhadores da cidade: Parauapebas, mesmo com salários acima da média nacional, ainda merece o título de cidade próspera quando o custo de viver nela consome toda a renda de quem a ajuda a crescer?
E enquanto se fala tanto que o minério de Parauapebas vai acabar, pouco se discute sobre o esgotamento da própria mão de obra que faz a cidade funcionar. Será que, além das reservas minerais, estamos também exaurindo a força de trabalho da nossa população, sem que haja qualquer retorno real em qualidade de vida, dignidade e oportunidades para quem vive aqui?
Fica o mais inocente questionamento em minha cabeça e na cabeça de João.

As opiniões expressas nesta publicação não refletem, necessariamente, o posicionamento do Portal Felipe Tommy ou seus funcionários. É de inteira responsabilidade do colunista.