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TRANSPARÊNCIA
Raio-X das contas públicas

Para onde vai o dinheiro de Parauapebas: prefeitura já empenhou R$ 1,57 bilhão em 2026 — e 77% das compras no mercado saíram sem licitação competitiva

Levantamento exclusivo do Portal Felipe Tommy analisou mais de 70 mil registros do Portal da Transparência: receitas, empenhos, liquidações e pagamentos de 1º de janeiro a 15 de julho de 2026 — o segundo ano do governo Aurélio Goiano (Avante), responsável pelo orçamento em vigor. Não há rombo de caixa até aqui — mas a arrecadação da mineração (CFEM) vem muito abaixo do que o próprio governo previu, e serviços essenciais rodam há meses em contratação “emergencial”, sem licitação.

Dados: Portal da Transparência da Prefeitura de Parauapebas (extração em 16/07/2026, dados até 15/07/2026) • Análise: Portal Felipe Tommy

Entenda em 1 minuto: as contas da prefeitura como se fossem as da sua casa

Sem economiquês. Imagine que a prefeitura é uma família e o orçamento é o salário do mês.

O salário da família
R$ 1,26 bi
É o que entrou no caixa até 15 de julho. Só que 77% desse “salário” não é ganho pela prefeitura: vem de repasses — principalmente dos royalties da mineração (CFEM). É como uma família que depende da mesada de um parente rico.
A mesada encolheu
−63%
O governo Goiano montou o orçamento contando com R$ 783 milhões da mineração no ano. Passada mais da metade do ano, chegou só 37% disso. É como planejar o ano contando com uma hora extra que não está vindo — e continuar gastando como se fosse vir.
O cartão de crédito
125%
A prefeitura já se comprometeu (empenhou) a gastar R$ 1,57 bilhão — 125% do que arrecadou até agora. A fatura ainda não venceu toda, mas o limite do cartão já passou do salário recebido.
Compras sem pesquisar preço
77%
De cada R$ 100 que a prefeitura gastou comprando serviços e obras no mercado, R$ 77 foram contratados sem disputa entre empresas — por dispensa, “emergência” ou carona em licitação dos outros. Em casa, seria comprar tudo no primeiro vendedor que aparece, sem pedir orçamento.

Resumo honesto: a conta ainda fecha — não há “cheque especial” estourado até aqui, e a arrecadação própria (IPTU, ISS) até cresce. O risco está nas escolhas de gestão: orçamento inflado na receita da mineração, compromissos acima do que entrou e serviços essenciais — lixo, transporte escolar, estradas — tocados há mais de um ano no improviso da “emergência”, que a lei só permite por 12 meses.

Impostômetro de Parauapebas 2026

Quanto o contribuinte local já pagou em impostos e taxas municipais (IPTU, ISS, ITBI, IRRF de servidores, taxas) — sem contar repasses da União, do Estado e da mineração.

Impostos e taxas municipais arrecadados de 1º/jan a 15/jul/2026
R$ 0
Equivale a cerca de R$ 1,4 milhão por dia • R$ 1.020 por habitante no período (Censo 2022: 266,4 mil hab.)
Impostos e taxas municipais, mês a mês (R$ milhões)
Julho contém apenas a primeira quinzena (barra listrada). Passe o mouse para o valor exato.
Janeiro: R$ 44,57 mi
Fevereiro: R$ 41,37 mi
Março: R$ 36,39 mi
Abril: R$ 37,44 mi
Maio: R$ 39,43 mi
Junho: R$ 40,63 mi
Julho (até dia 15): R$ 32,10 mi
JanFevMarAbrMaiJunJul*

Receita x Despesa: o placar de 2026

Tudo o que entrou e tudo o que foi pago pela prefeitura, mês a mês.

Receita arrecadada
R$ 1,263 bi
1º/jan a 15/jul (orçamentária)
Despesa empenhada
R$ 1,572 bi
125% da receita já arrecadada
Despesa liquidada
R$ 1,201 bi
serviço/produto já entregue
Despesa paga
R$ 1,221 bi
R$ 1,167 bi de 2026 + R$ 53,9 mi de restos a pagar de anos anteriores
Arrecadado (azul) x Pago (vermelho), R$ milhões
Julho contém apenas a primeira quinzena. Em abril e maio a prefeitura pagou mais do que arrecadou no mês.
Rec. jan: R$ 225,2 mi
Pago jan: R$ 156,7 mi
Rec. fev: R$ 201,2 mi
Pago fev: R$ 202,0 mi
Rec. mar: R$ 188,8 mi
Pago mar: R$ 185,9 mi
Rec. abr: R$ 177,5 mi
Pago abr: R$ 199,1 mi
Rec. mai: R$ 175,3 mi
Pago mai: R$ 201,1 mi
Rec. jun: R$ 196,4 mi
Pago jun: R$ 196,9 mi
Rec. jul*: R$ 98,7 mi
Pago jul*: R$ 25,1 mi
JanFevMarAbrMaiJunJul*
Arrecadado no mêsPago no mês

De onde vem o dinheiro

77% da receita corrente vem de transferências — e a maior fatia individual é a CFEM, os royalties da mineração. Só 23% nascem de impostos e receitas próprias do município.

Principais fontes de receita em 2026 (R$ milhões, até 15/jul)
 
CFEM — royalties da mineração
289,4
Cota-parte do ICMS
250,3
FUNDEB (federal + estadual)
182,7
ISS (todas as modalidades)
174,6
FPM — Fundo de Participação
82,4
IRRF (servidores e fornecedores)
67,0
SUS (União + Estado)
47,4
IPVA
24,4
Iluminação pública (COSIP)
14,9
IPTU
7,7

⚠ O alerta da CFEM: orçamento contava com R$ 783 mi, entrou só 37%

Com 54% do ano decorrido, a CFEM rendeu R$ 291,2 milhões — 37,2% da previsão anual. Se o ritmo se mantiver, o ano fecha perto de R$ 537 mi e abre um buraco de quase R$ 250 milhões na principal fonte do orçamento. As “transferências de instituições privadas” (convênios com a mineração) estão ainda piores: previstos R$ 97,5 mi, entraram R$ 16,8 mi (17%).

Receita superestimada infla a autorização de gasto. A LRF (LC 101/2000, art. 9º) obriga o Executivo a contingenciar despesas quando a arrecadação frustra a meta.

Para onde vai: os gargalos do gasto

Quase metade de cada real liquidado (47%) paga a folha e encargos de pessoal. Investimento (obras e equipamentos) ficou com 11%.

Despesa empenhada por órgão (R$ milhões, até 15/jul)
Educação soma Fundo Municipal de Educação + FUNDEB.
Educação (FME + FUNDEB)
447,7
Saúde (FMS)
359,5
Prefeitura (administração direta)
221,4
Segurança Institucional
140,4
Obras
135,0
Serviços Urbanos
98,7
PROSAP (saneamento)
75,3
Produção Rural
54,4
Assistência Social (FMAS)
39,5
Pessoal e encargos
47,4%
R$ 569,8 mi liquidados
Custeio (serviços, material, contratos)
38,8%
R$ 466,3 mi liquidados
Investimentos
11,1%
R$ 133,1 mi liquidados
Dívida (juros + amortização)
2,6%
R$ 31,7 mi liquidados

Os maiores credores da prefeitura

Fora a folha de pagamento e os encargos (INSS, PASEP), estes são os fornecedores privados que mais receberam dinheiro público em 2026.

Valores pagos a fornecedores privados (R$ milhões, até 15/jul)
DISP = contratado por dispensa de licitação (total ou parcialmente).
ASELC/OSS — gestão do Hospital Geralcontrato de gestão
80,9
RESSOL Resíduos Sólidos — coleta de lixodisp
27,9
EMPÓRIO A&C — estradas vicinaisdisp
19,0
RICARDO A. DE LIMA MARTINS — roçagem e limpezadisp
11,9
I DE OLIVEIRA DA SILVA — recuperação de pavimento
11,7
Clínica de Nefrologia de Parauapebas — hemodiálise
11,6
A & L Engenharia e Serviçosdisp
11,2
IPS Conleste — iluminação pública
10,8
ANNEL Transportes — transporte escolardisp
10,4
INFRACON Engenharia
9,4

O sinal vermelho: 77% das compras sem disputa

Excluindo folha de pagamento e despesas administrativas, a prefeitura empenhou R$ 608,7 milhões em contratações de mercado. Destes, R$ 469,4 mi (77%) saíram por contratação direta — dispensa, inexigibilidade ou “carona” em atas de outros órgãos. Só 23% passaram por pregão, concorrência ou similar.

Empenhos por modalidade de contratação (R$ milhões)
 
Dispensa de licitação
307,0
“Carona” (adesão a ata)
99,0
Concorrência
73,0
Pregão
64,8
Inexigibilidade
55,1
Outras dispensas (art. 24)
8,3
Tomada de preço + convite
1,5
Contratação direta (sem disputa)Com disputa pública

🚨 A “emergência” que não acaba nunca

Coleta de lixo (RESSOL, CVV), manutenção de estradas vicinais (Empório A&C), roçagem (Ricardo A. de Lima), transporte escolar (ANNEL) e combustível (WEX e DRAW) — serviços contínuos e 100% previsíveis — vêm sendo pagos mês após mês por “contratação emergencial”, com boletins de medição que já chegam ao 13º mês. Emergência que se repete por mais de um ano é o que os tribunais de contas chamam de emergência fabricada: falta de planejamento usada para fugir da licitação.

Lei 14.133/2021, art. 75, VIII: dispensa emergencial vale por no máximo 1 ano e é vedada a recontratação pela mesma regra; a emergência decorrente de desídia administrativa pode gerar responsabilização do gestor.

🚨 R$ 4,5 milhões em assessoria contábil sem licitação

A prefeitura empenhou R$ 4,47 milhões para a L DE LEÃO CONSULTORIA por inexigibilidade — modalidade reservada a serviços singulares de notória especialização. Contabilidade pública rotineira raramente se enquadra: é serviço comum, com dezenas de empresas aptas a disputar.

Lei 14.133/2021, art. 74, III: exige natureza singular + notória especialização. Jurisprudência consolidada do TCU e dos TCEs restringe inexigibilidade para serviços contábeis ordinários.

🚨 Um único credor, R$ 96 mi por dispensa: a OSS do Hospital Geral

A ASELC/OSS recebe R$ 14,28 milhões por mês para gerir o Hospital Geral de Parauapebas — R$ 95,97 mi empenhados no ano, tudo por dispensa. O modelo de Organização Social é legal, mas concentra 7% de todo o orçamento executado em um único contrato: cabe fiscalizar metas, prestação de contas e se houve chamamento público para a escolha da entidade.

Lei 9.637/1998 (contratos de gestão) e Lei 14.133/2021, art. 75, XV. Transparência das metas e resultados é obrigação do contrato de gestão.

⚠ R$ 99 milhões de “carona” em atas de outros órgãos

Recuperação de pavimento (I de Oliveira da Silva, R$ 30,7 mi), reformas de escolas (Construtora Porto, R$ 13,6 mi) e climatização (O Moveleiro, R$ 13,4 mi) foram contratadas por adesão a atas de registro de preços de outros órgãos — sem licitação própria do município. É legal dentro de limites, mas o volume merece conferência dos limites do art. 86 da Lei 14.133.

Lei 14.133/2021, art. 86, §§ 2º a 8º: adesão limitada a 50% dos quantitativos da ata por órgão e ao dobro no total.

✓ O que está em ordem (por enquanto)

1) Não há rombo de caixa: o pago (R$ 1,221 bi) cabe dentro do arrecadado (R$ 1,263 bi). 2) A ordem cronológica de pagamentos registra apenas 1 quebra declarada em 2.780 pagamentos. 3) A receita própria (impostos municipais) cresce acima do ritmo do orçamento: 59% da meta com 54% do ano. 4) Educação e Saúde lideram o gasto, na direção dos mínimos constitucionais — a confirmação exata depende do RREO do 3º bimestre.

A tabela completa, mês a mês

MêsReceita arrecadadaImpostos municipaisLiquidadoPagoSaldo do mês (rec. − pago)
JaneiroR$ 225.203.384R$ 44.565.440R$ 134.680.143R$ 156.661.195+ R$ 68,5 mi
FevereiroR$ 201.246.078R$ 41.367.037R$ 216.294.411R$ 202.035.996− R$ 0,8 mi
MarçoR$ 188.834.627R$ 36.386.543R$ 205.831.196R$ 185.909.027+ R$ 2,9 mi
AbrilR$ 177.469.821R$ 37.435.160R$ 208.457.010R$ 199.101.661− R$ 21,6 mi
MaioR$ 175.281.972R$ 39.434.845R$ 200.100.195R$ 201.107.962− R$ 25,8 mi
JunhoR$ 196.360.044R$ 40.634.341R$ 209.883.211R$ 196.861.024− R$ 0,5 mi
Julho (até 15)R$ 98.662.505R$ 32.096.588R$ 48.198.121R$ 25.114.517+ R$ 73,5 mi
TotalR$ 1.263.058.430R$ 271.919.954R$ 1.223.444.286R$ 1.166.791.381+ R$ 96,3 mi

Como fizemos esta análise

  • Fonte: Portal da Transparência da Prefeitura de Parauapebas — planilhas de receitas orçamentárias, receitas previstas x arrecadadas, empenhos, liquidações, pagamentos, restos a pagar, ordem cronológica e lista de fornecedores. Extração em 16/07/2026; dados de 1º/01 a 15/07/2026.
  • Empenhado x liquidado x pago: empenho é a reserva do dinheiro; liquidação é o reconhecimento de que o serviço foi entregue; pagamento é a saída do caixa. Por isso os três valores diferem.
  • O impostômetro soma apenas impostos e taxas de competência municipal (códigos 1.1 e 1.2 da classificação orçamentária), pagos pelo contribuinte local. Não inclui CFEM, ICMS, FPM e demais repasses.
  • Movimentações extraorçamentárias (retenções de INSS/IRRF, transferências entre contas do próprio município, ~R$ 860 mi) foram excluídas dos totais para evitar dupla contagem.
  • População: Censo IBGE 2022 (266.424 habitantes).
  • Os valores de julho são parciais (1ª quinzena). Registros anulados constam do arquivo de empenhos e podem gerar pequenas divergências com relatórios oficiais consolidados (RREO/RGF).
  • O outro lado: o prefeito Aurélio Goiano tem afirmado publicamente que herdou da gestão anterior mais de R$ 1,6 bilhão em dívidas e uma queda de arrecadação. Os dados confirmam parte do contexto: em 2026 a prefeitura já pagou R$ 53,9 milhões em restos a pagar de exercícios anteriores. As contratações emergenciais e o orçamento de 2026, porém, são atos da gestão atual.
  • A prefeitura de Parauapebas foi procurada para se manifestar sobre os achados desta reportagem. A nota será publicada na íntegra assim que enviada.